Tirando a Trave do Próprio Olho - 1 Reis
"Pastoreai o rebanho de Deus, que está aos vossos cuidados, não sob compulsão, mas espontaneamente, nem por amor de ganho desonesto, mas com anelo." - 1 Pedro 5:2
Introdução
Quando era criança costumava contemplar as nuvens no céu, tentava encontrar formas conhecidas, as vezes encontrava uma figura de um animal, uma pessoa, um passaro. A imaginação ia longe e em alguns momentos tentava entender o que teria depois das nuvens. Tinha vontade de me tornar um pássaro e voar o mais alto que pudesse para descobrir o que havia em cima dos céus, por trás das nuvens. Quem sabe talvez eu me encontrasse com Deus, brincando com as nuvens assim com uma criança brinca com espuma de sabão.
Jovem Ancião
A idéia que temos dos anciãos é muito diferente da realidade, somente quem já foi ou é sabe exatamente como é. Eu queria fazer progresso dentro da organização, me sentia engajado, sabia que tinha potencial, era esforçado, responsável, dedicado e enfim veio a designação. E agora ?
Me lembro de uma propaganda numa revista de informática onde tinha a foto de um cara saltando de para-quedas. Na foto a imagem do homem caindo e o avião ao longe se distanciando dele. Ao lado da foto uma frase: "Saltei, estou no ar, e agora ?"
Foi mais ou menos esta a sensação quando me ví como ancião. Ficava imaginando por onde começar, o que fazer, como ajudar a congregação. São muita perguntas que se passam em nossa mente, muita vontade de sair fazendo coisas, poder mudar aquilo que te incomodava, ajudar aqueles a quem acha que precisa, etc.
Entretanto um ancião novo, o máximo que ele pode fazer é observar, entender como funciona o sistema e dai ir se enquadrando. A primeira coisa que você se dá conta é que tudo tem que ser decidido em conjunto, pois quando os anciãos se reunem para discutir um assunto eles são resolvidos em votação, e todos tem que estar de acordo. É um bom método, porém tem seus problemas. Pois como você é novo, então não tem muita experiencia ou opinião formada sobre determinado assunto, neste caso então você acaba indo pela maioria.
O ideal seria que antes de uma reunião de anciãos houvesse uma pauta dos assuntos que serão discutidos, mas isto nem sempre acontecia, e as vezes eu me via no meio de uma reunião sem saber o que seria discutido. Assim não tinha argumentos, não tinha nenhum embasamento Bíblico a não ser que o soubesse de cabeça. Então a coisa ia mesmo para se apoiar na opinião de alguém ou na da maioria mesmo. É como uma onda, o mais forte opina e os outros geralmente vão atrás.
Com o tempo porém você vai pegando o jeito da coisa, vai se fortalecendo em relação a argumentos, definindo uma posição ou opinião. Mesmo assim existe um jogo político, anciãos que tem mais afinidades com uns o que com outros e que acabam meio que apoiando-se mutuamente não necessariamente pela solidez dos argumentos, e sim por causa da amizade. É sum jogo social, como em qualquer outro lugar.
Nos reuníamos para decidir tudo relacionado a Congregação. Uma reforma, aumentar as contribuições, melhorar a qualidade das reuniões, decidir que seriam os dirigentes de grupo, escola do ministério teocrático, construção, manutenção, saida de campo, discursos, etc. Ou mesmo quando surgia um determinado assunto que merecesse uma decisão por parte dos anciãos.
Além das reuniões comuns, ainda havia a reunião pré-visita do superintendente, onde na verdade a preocupação maior era saber se a casa estava em ordem para a chegada do homem. Eu ficava intrigado com o alvoroço que se formava sempre na proximidade de uma visita, na minha opinião a coisa tinha que funcionar de sempre, e não apenas dar uma melhorada ou um gás na visita. Me sentia como que armando um teatro, mas com o tempo percebi que era algo comum, tipo já algo cultural.
E como ancião novo, observar e aprender !
Logo começei a me destacar de certa forma entre os anciãos, tinha formação, tinha arte de ensino e tinha habilidade de oratória. Eu estava no grupo dos anciãos bem qualificados. Pois existe pelo menos 3 categorias de ancião, os que se destacam os "bons", os medianos e os limitados. Alias quando se queria invalidar a opinião de certo ancião era só argumentar que o irmão era limitado. Ou mesmo quando ele fazia alguma prezepada, se dizia, "ah mas o irmão é limitado ! "
Eu conhecí todo tipo de ancião, dos bons aos limitados. Mas o que eu mais observava que todos na verdade estavam no mesmo barco, sendo limitados ou não, e com a mesma responsabilidade sobre os ombros.
Existem diferentes motivações que levam uma pessoa a almejar o cargo de ancião. Alguns em busca de fazer mais para Jeová, outros por destaque ou status e outros porque querem servir mais a Congregação. Eu queria ser útil a Congregação, eu me baseava no texto acima citado.
Por isto quando me tornei ancião, desde o começo procurava fazer o melhor e cuidar muito bem de qualquer departamento que estivesse aos meus cuidados. Procurava pesquisar cuidadosamente sobre qualquer assunto que merecesse atenção, tentava melhorar aquilo que fazia. E assim por diante. Logo este empenho começou a se traduzir em elogios e também pelo fato de se tornar uma referencia na Congregação. É algo meio que automático, os irmãos percebem quando uma pessoa se esforça, se destaca, tem qualificações, empatia, etc. E este irmão acaba sendo mais solicitado que os demais.
Isto é tão verdade que as vezes quando algum irmão tinha um problema, este ao trazer o assunto aos anciãos as vezes até mencionava que gostaria que o irmão "X" estivesse junto para cuidar do assunto. Por outro lado quando um ancião era grosseiro ou limitado as vezes se dizia o contrário.
Esta coisa de se destacar na Congregação pode ser um problema. Alguns encaram o fato de trabalhar lado a lado com pessoas mais qualificadas como uma honra. Eu mesmo gostava de servir com irmãos experientes, inteligentes e de opinião formada. Por outro lado, existem alguns que desenvolvem a coisa do ciúmes e inveja, e isto se torna um problema ! Infelizmente, tive que enfrentar este tipo de coisa também.
Mas lá estava eu, ancião novo me esforçando, me dedicando, aprendendo e passando por um novo processo em minha vida. Começou a acontecer algo do qual eu não estava me dando muito conta, eu estava me tornando um irmão ou lider organizacional, o que é muito diferente de ser um pastor para o rebanho que Deus deixou aos nossos cuidados. E é sobre este processo e o que o mesmo envolve que pretendo escrever no próximo post....

6 comentários:
Vamos esperar você terminar, mas seu caso não é difícil de ser analisado. Seria interessante também você falar sobre seu comportamento fora da organização, como filho, como marido, como pai, como profissional, como ser humano. Isso ajuda a esclarecer as coisas. Eventualmente as pessoas possuem uma dupla personalidade, e quem sabe uma tripla, principalmente quando se trata de um ancião.
Mas não me leve a mal, é que estou curioso, fui ancião também, me identifico com algumas passagens da sua história, hoje não faço mais parte da Organização de Jeová, mas as marcas ficaram, e de modo profundo. Mas as marcas que ficaram não foram somente em mim,mas também na minha família de um modo geral. Eu, na ância de estar fazendo o que era correto para a organização, acabei negligenciando meu lar, as pessoas que mais me amavam e que na verdade ainda amam.
Abraços
"Começou a acontecer algo do qual eu não estava me dando muito conta, eu estava me tornando um irmão ou lider organizacional, o que é muito diferente de ser um pastor para o rebanho que Deus deixou aos nossos cuidados. E é sobre este processo e o que o mesmo envolve que pretendo escrever no próximo post...."JB
Pelo que percebi você apenas deixou de fazer para um lado e está fazendo para o outro. Continua se comportando como Lider e o que é pios ainda, usando a Bíblia pra isso.Mas você não está se dando conta disso. Saiba que por todas as vidas que você está influenciando o sangue delas será cobrado de você assim como foram cobrados dos Líderes religiosos do tempo de Jesus que também usavam as escrituras mas que foram condenados por Cristo.O Anônimo ai em cima falou com conhecimento, parece que ele tocou na ferida.
Ass. Sem pedras.
Estou apenas relatando as coisas conforme aconteceram. Vou deixar as conclusões e julgamentos para os juízes de Plantão.
Bom trabalho para vocês !
JB
PAROU DE ESCREVER, SERÁ O MEDO DO JULGAMENTO? OU NÃO QUER FALAR DA VIDA PESSOAL.
DECEPÇÃO
Alguém falou de Julgamento? Por que as religiões cristãs são motivadas pelo medo da punição?
Se Deus realmente punisse os que pensam diferente, não choveria sobre os maus e só os bons prosperariam. As pessoas é que ceifam os resultados de suas ações e ações de outros. Deus não se envolve com isso.
Mas tudo depende do que nós acreditamos. Por exemplo, para um cristão existe a tendência de dizer: Algo é bom que acontece é benção de Deus. Se algo é mau é prova de Satanás perseguição.
Daí pessoas com autoridade sobre os critãos usam isso para manipula-las (mesmo bom boas intenções)
Exemplo: para a continua sobrevivencia das TJ a pregação é necessária. Mas como convencer pessoas a fazer esse trabalho desafiador. Simples...mostrando que se ela não fizer terá 'culpa de sangue'. Pronto agora a motivação existe.
Mas aí se vc é uma pessoa prágmática pensa, bom se Jeová quer que o mundo o conheça vamos realmente fazer nosso melhor para que isso aconteça? Que tal colocar programas numa rede de televisão, ou criar a nossa? Vamos escrever em jornais, colocar anúncios no JN, no intervalo da COPA, etc. Isso sim dá resultado. Afinal se pregar de casa em casa fosse o melhor jeito de espalhar uma mensagem, nas eleições não haveria programa politico de TV, mas um monte de gente 'pregando de casa em casa' o seu candidato e programa de governo - tb. A propaganda das casa bahia seria assim tb. né :-)
Daí você pensa, porque o Corpo Governante (CG) não faz isso? Não se esforça para realmente espalhar o nome de Jeová, a mensagem do Reino da maneira mais eficaz possível? Note que Russel gastou sua fortuna pessoa fazendo isso, mas hj. sem se toca no assunto no CG.
Seria medo/receio de expor a religião realmente para o mundo e não suportar a exposição?
Lógico que tudo de bom seria conhecido, mas também se investigaria e se conheceria tudo de mal, os defeitos, os erros, a vida de milhares que ajudou e a vida de milhares que arruinou.
Se isso acontecesse a religião, a organização perderia o encanto de 'perfeita'. Os membros deixariam de acreditar em coisas como: Quando o CG erra é 'a luz brilhando mais e mais'. E entenderiam que eles são humanos que erram, mesmo quanto querem fazer o bem, assim como todos nós. Vai de nós escolher seguí-los ou não.
Ou seja, a pregação sempre será feita em micro escala (de casa em casa) usando a culpa/julgamento como motivação porque do contrário a exposição daria a todas as TJ a oportunidade de pensar e questionar o ensinos e as práticas do CG. E isso é o início do fim de qualquer religião.
Ah, por isso JB, continue a escrever. Motivação por medo de julgamento/culpa é algo que funciona só para os que se deixam controlar por outros usando a bíblia para isso.
Obrigado por seus comentários anonimo. Muito interessante o que você escreveu sobre a pregação de casa em casa, o carimbo dos TJ, nossa marca registrada como costumamos dizer. E assim como você disse, quem sabe uma marca registrada de fracasso e ineficiencia....Algo a se pensar !
JB
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